Muitas são as pessoas que movimentam a Independência em São Leopoldo. Mas nem todas sabem como a história dela foi escrita. Apelidada carinhosamente de Rua Grande – nome de uma revista local -, a via nasceu em 1824 com a chegada dos imigrantes alemães a cidade que, posteriormente, foi intitulada de berço da colonização germânica no Brasil.
Seu primeiro nome foi Rua do Passo. A motivação veio de uma cena comum em época de seca no Rio dos Sinos: fazendeiros que desciam a serra por São Francisco de Paula, “tocando” o gado em direção a capital gaúcha, atravessavam o rio a passo – e seguiam a diante – somente na altura da única rua de São Leopoldo. Isso era possível porque a estiagem deixava o nível da água abaixo dos joelhos. Banhar-se também passava a ser uma atividade natural visto que a profundidade não era significativa.
O diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, Telmo Lauro Müller, diz que a fama da rua não é à toa, já que a expansão do município se deu a partir dela. “Desde que me conheço por gente, ela é o luxo da cidade, o lugar de ricos e pobres, de bem-vestidos e mal-vestidos, brancos e negros, homens e mulheres, idosos e crianças”, observa.
Müller, no papel de professor – formado em História e Geografia pela UFRGS -, também dá seu parecer sobre a evolução da via ao longo dos anos: “Sou natural do bairro rural Lomba Grande, em Novo Hamburgo. Vim para o centro de São Leopoldo, em 1936, quando tinha apenas 10 anos e acompanhei todo o progresso da rua. Além de ver a mudança de nome por determinação de uma lei municipal, assisti ela ser “aplaudida”, ganhar estabelecimentos, reunir pessoas e ser palco de eventos varejistas, políticos e religiosos como eleições, passeatas, comércio ambulante, recepção de presidentes e até mesmo manifestações de homossexuais (parada gay)”.
Segundo o diretor, os pontos positivos que contribuíram para a popularização da rua, foi o investimento de casas de shows, bares e demais estabelecimentos comerciais para o público da cidade. “De dia, a agitação é grande em função das compras e, a noite, a rua abriga muita gente que procura diversão, principalmente no segmento esportivo. Os jogos de futebol na televisão fazem a alegria das pessoas; as mesas invadem as calçadas e os torcedores se agrupam para vibrarem juntos. É muito gostoso de presenciar.”
Quando o assunto são os fatores negativos, o historiador é categórico: ”Não posso nem ouvir falar em reformas e demolições de prédios antigos. É triste presenciar a depredação que acontece com as construções hoje em dia. Foi arrancado do povo capilé, a oportunidade de apreciar diariamente a sua história. Esta chance só é dada a quem visitar o Museu ou a pizzaria Bucadisantantônio“. Ele comenta conhecer outra realidade. “Em Ouro Preto (MG), por exemplo, a cultura é outra. A preservação é tão importante quanto as necessidades básicas da população”, complementa.
Para Marcos Witt, outro historiador do Museu, além da história, há outras questões que necessitam ser debatidas. O trânsito é uma delas. “Este aspecto é caótico na rua, pois as calçadas foram alargadas devido a vida noturna. Os parquímetros instalados a pouco tempo também estão deixando a desejar. A discussão gira em torno de transformá-la ou não em um calçadão”, adianta. Ele ainda explica que ela precisa ser revitalizada. “A primeira coisa seria humanizá-la, retirando toda a poluição visual referente a cartazes, fachadas e banners. Isso deixaria os ambientes mais tranqüilos e abriria espaço até mesmo para o turismo”, conclui.
Quem não conhece a Rua Grande, mas se deixou envolver pela sua história, não pode deixar de conferir tudo o que ela tem a oferecer aos nativos e visitantes. Saiba como chegar lá: